Noite Sandinista: incitamento à guerrilha dirigido por “cristãos” (PDF Grátis)

Na Noite Sandinista

O INCITAMENTO À GUERRILHA

dirigido por sandinistas “cristãos” à esquerda católica no Brasil e na América Espanhola

Análise e comentários pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Presidente do Conselho Nacional da TFP

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Comunidades eclesiais de base

O IV Congresso Internacional Ecumênico de Teologia (1980), promovido pela Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo – organização integrada por protestantes e católicos – se realizou no Instituto Paulo VI (Centro de Treinamento de Líderes da Arquidiocese de São Paulo), no município de Taboão da Serra. O tema geral do Congresso era “Eclesiologia das comunidades eclesiais de base”.

Congresso de Teologia da Libertação

O Instituto Paulo VI, que ocupa um terreno de setecentos mil metros quadrados, esteve, durante o Congresso, sob a estrita vigilância de guardas armados. Estes eram funcionários de uma empresa privada especializada em serviços tais.

O Congresso – cuja programação interna foi cercada de grande sigilo – contou com a participação de mais de 160 Bispos, Padres, freiras, leigos de ambos os sexos (sociólogos, economistas, agentes de pastoral, membros das Comunidades de Base) e pastores protestantes de 42 países. Segundo o noticiários da imprensa, estiveram presentes, entre outros, os seguintes eclesiásticos:

do Brasil, D. José Maria Pires, Arcebispo de João Pessoa; D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia; Pe. Edenio do Valle, Vice-Reitor da Pontifícia Universidade de São Paulo; Frei Gilberto Gorgulho, O.P., Coordenador de Pastoral em São Paulo; Frei Leonardo Boff, O.F.M., teólogo redator da “Revista Eclesiástica Brasileira”; Frei Carlos Mesters, O. Carm., exegeta; Pe. José Oscar Beozzo, diretor do Instituto Teológico de Lins; Pe. Paulo Suess, secretário-geral do CIMI – Conselho Indigenista Missionário; Pe. João Batista Libânio, S.J., Assessor da CNBB; Frei Carlos Alberto Libânio Christo, O.P. (Frei Betto), secretário-executivo do Congresso; Hugo Assmann, teólogo;

do Chile, Pe. Pablo Richard, teólogo; Pe. Ronaldo Muñoz, teólogo; Pe. Sergio Torres, teólogo;

de El Salvador, Jon Sobrino, teólogo;

da Jamaica, Pe. Alfredo Ride; – do México, D. Samuel Ruiz, Bispo de Chiapas; Frei Miguel Concha, O.P.;

da Nicarágua, Pe. Miguel D’Escoto, Ministro das Relações Exteriores desse país, e Frei Uriel Molina, O.F.M.;

do Peru, Pe. Gustavo Gutiérrez, teólogo;

de Sri Lanka (Ceilão), Pe. Tissa Balasuriya.

A presidência-executiva coube ao pastor metodista Paulo Ayres de Mattos, sendo presidente-honorário o próprio Cardeal-Arcebispo de São Paulo; participou igualmente o pastor metodista argentino J. Míguez-Bonino, presidente do Conselho Mundial das Igrejas, organismo ecumênico protestante, além de outros teólogos e teólogas protestantes.

A simples nominata dos participantes (a par dos temas que, segundo a imprensa, foram tratados) é suficiente para caracterizá-lo como um Congresso de Teologia da Libertação.

Noite Sandinista e Comunidades Eclesiais de Base

Enquanto presumivelmente se procedia em Taboão da Serra a secretas elaborações doutrinárias e articulações táticas, realizava-se no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – TUCA (Rua Monte Alegre, 1024), uma Semana de Teologia subordinada ao título A Igreja na América Latina, promovida pelo Departamento de Teologia do Instituto de Estudos Especiais da mesma Universidade. A Semana de Teologia se estendeu de 21 de fevereiro a 1º de março, com sessões públicas e diárias.

Conforme declaração do Cardeal Arns, no discurso de abertura, a Semana de Teologia resultou de um pedido da Associação Ecumênica de Teólogos, que desejava “entrar em contato” com os membros das Comunidades Eclesiais de Base e movimentos populares da periferia de São Paulo. As sessões noturnas do TUCA constituíam um desdobramento do Congresso, em que os temas tratados em Taboão da Serra eram em alguma medida transmitidos aos militantes das Comunidades de Base, os quais representavam a maioria dos assistentes.

Revestiu-se de particular aparato a sessão do dia 28 de fevereiro de 1980, em que foram recepcionadas e homenageadas importantes figuras da Revolução Sandinista, vitoriosa na Nicarágua. Várias delas fizeram uso da palavra durante a sessão. O ponto alto da noite consistiu na entrega a D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia (região semi-selvática no Estado de Mato Grosso, incluindo a ilha do Bananal, em Goiás), de um uniforme de guerrilheiro sandinista, cuja jaqueta o Prelado vestiu no mesmo instante.

Reproduz-se, neste livro, o texto integral dos discursos então pronunciados pelos representantes sandinistas, bem como as palavras proferidas pelo coordenador da sessão, Frei Betto, e pelo homenageado, Bispo D. Pedro Casaldáliga.

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Do estudo desses discursos se depreende que:

  1. A Revolução Sandinista contém um substrato de programa sócio-econômico ainda não inteiramente definido, mas do qual já são dados a público, oficialmente, vários lineamentos gerais bem como pontos programáticos. Tanto uns quanto outros correspondem ao que os partidos comunistas da Ibero-América pedem aos seus mais íntimos e chegados “companheiros de viagem”. O caráter radicalmente igualitário da ideologia sandinista não deixa dúvidas de que o sandinismo, ou se identifica com o comunismo, ou se situa nos subúrbios ideológicos deste.
  2. O sandinismo se tem em conta de mera expressão nicaraguense de uma revolução socioeconômica una, a qual seus seguidores afirmam que está lavrando em todo o mundo iberoamericano.
  3. Por sua vez, essa revolução latino-americana seria manifestação do descontentamento geral dos grupos sociais marginalizados, bem como, em escala internacional, também dos povos subdesenvolvidos.
  4. Na política interna da Nicarágua, o sandinismo é uma frente única de várias forças. Entre essas, ocupam posição de destaque os “cristãos revolucionários”.
  5. Estes últimos se agrupam, por sua vez, em uma só frente constituída por Comunidades Eclesiais de Base e movimentos análogos. Contam eles com o apoio de vários e ativos Sacerdotes ainda jovens.
  6. O mínimo que se pode dizer desses grupos – segundo o fazem ver os oradores sandinistas – é que sua pertencença à Igreja Católica é absolutamente discutível:
    • eles promoveram uma revolução interna na Igreja na Nicarágua, possantemente coadjuvada – segundo eles – pelo afastamento das autoridades eclesiásticas conservadoras, e sua substituição por cooperadores ou “inocentes-úteis” da Revolução Sandinista;
    • desses cooperadores, vários Sacerdotes atuaram como verdadeiros pregadores e capelães da Revolução Sandinista.
  7.  Essa revolução eclesiástica é de índole teológica. E identifica-se com a Teologia da Libertação, que tem por mestre o Sacerdote peruano, Gustavo Gutiérrez, participante do IV Congresso Internacional de Teologia, e um dos oradores da sessão de abertura da Semana de Teologia, presente, aliás, à “Noite Sandinista”. Ela é tão radicalmente igualitária no terreno eclesiástico quanto a Revolução Sandinista o é no terreno civil. A reversibilidade entre esses dois movimentos é tal que o sandinista se tem por cristão porque é sandinista. E o cristão, adepto da Teologia da Libertação, se tem em conta de sandinista por que cristão.
  8. O igualitarismo eclesiástico da Teologia da Libertação chega a ponto de não admitir mais uma Igreja Hierárquica, dividida em duas classes nitidamente distintas, das quais cabe a uma ensinar, governar e santificar, e à outra ser ensinada, governada e santificada (cfr. São Pio X, Encíclica Vehementer de 11 de fevereiro de 1905, Actes de Pie X, Bonne Presse, Paris, vol. II, pp. 133-134). Pelo contrário, Deus falaria à sua Igreja por meio de impulsos que o povo manifesta. Competiria à Hierarquia deixar-se orientar por essa forma de profetismo popular.
  9. Em suma, o ouvinte se vê posto assim em presença de uma Igreja-Nova, com uma estrutura nova, com uma moral social nova, inspiradora de uma luta de classes sócio-econômica, a qual não é possível distinguir da que Marx ensinava. Essa a luta, a ser travada, quando necessário, até de armas na mão. O que, tudo, a identifica assim com a subversão.
  10. Em suma, a emitir um juízo sobre o “cristianismo sandinista” ou o “sandinismo cristão”, pode-se afirmar com segurança que constitui pelo menos uma possante corrente de fiéis “companheiros de viagem” do comunismo. Ou uma mal velada secção do comunismo internacional, especializada em confundir e iludir os meios religiosos, neles infiltrar-se, e, por fim, os utilizar como estribo para alcançar o poder.
  11. Os oradores da sessão do dia 28 de fevereiro – todos personagens com participação intensa na Revolução Sandinista, ou no governo nicaraguense atual – constituem uma equipe coesa e bem articulada. Seus discursos consistem em apelos, ora mais ora menos explícitos, a que os espectadores – quase todos filiados a movimentos ou correntes católicas de esquerda – redobrem de esforços para empurrar o Brasil pelas vias a que eles conseguiram arrastar a Nicarágua.Com a aparência embora de improvisados, cada um dos discursos dessa noite contém matéria bastante definida:
    • o histórico do movimento revolucionário sandinista desde suas origens, há cinqüenta anos, até a vitória em 1979; as fases de desenvolvimento interno do movimento, as etapas da luta externa etc. (Frei Betto);
    • como a dona de casa quis ser guerrilheira (Socorro Guerrero, das Comunidades de Base de Manágua);
    • como se fez guerrilheiro o trabalhador urbano (David Chavarría, das Comunidades de Base de Manágua);
    • idem o trabalhador rural (Augustin Zambola);
    • Idem o Padre (Pe. Uriel Molina).

Em suma, como se fez guerrilheira toda a nação.

Aqui, ali e acolá, outros assuntos importantes foram apresentados ao público. Por exemplo:

– as várias fases do processo subversivo: aglutinação, conscientização, agitação, revolução e conquista do poder (Frei Betto);

– o perigo de uma revanche somozista-norte-americana (Socorro Guerrero);

– o apelo a que o exemplo da Nicarágua frutifique na América Latina (D. Casaldáliga, Socorro Guerrero, Comandante Ortega) etc.

Desta maneira, a “Noite Sandinista” no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sem embargo de sua aparência leve (vários oradores, músicas e canções etc.) constituiu uma inoculação carregada de toxinas revolucionárias, no auditório. Cada orador soube aproveitar seu tempo quase até à usura.

Para o leitor não brasileiro, parecerá escapar a essa regra o presidente da sessão, Frei Betto, que em cada intervenção parecia mero repetidor do orador que acabava de falar. Entretanto, o papel de Frei Betto também era necessário, pois os oradores falavam em espanhol, e a despeito da afinidade desse idioma com o português, eram compreendidos imperfeitamente por boa parte do auditório.

Tudo isto posto, os discursos sandinistas não serão devidamente entendidos se se considerar cada qual abstração feita do outro, impõe-se pois uma visão de conjunto das várias peças, o que parece mais elucidativo fazer nesta análise introdutória.

A revolução vitoriosa na Nicarágua compunha-se de dois segmentos distintos, o político e o religioso.

O segmento político apresentava – e ainda apresenta – a fisionomia característica de um movimento comunista constituído segundo os moldes clássicos, para a conquista do poder:

a) Frente única de grupos políticos esquerdistas de vários matizes, entre os quais a indefectível esquerda burguesa (ou “burguesia nacional”, como é designada na literatura comunista; isto é, a burguesia não “comprometida” com o capitalismo internacional), os “inocentes-úteis” etc. Estes são os “companheiros de viagem” que seguirão lado a lado com os comunistas até a vitória e a final consolidação do processo revolucionário;

b) Inviscerado nessa frente única, e dirigindo-a pela radicalidade e precisão de suas metas, pela eficácia de seus métodos e pela inteira disciplina de seus quadros, figura o Partido Comunista. Este logo passa a ser a alma da frente única, e o polo de atração, tanto doutrinário quanto político, dos outros agrupamentos.

Bem entendido, a frente única se destina em parte a criar no público a ilusão de que a vitória da revolução não será ipso facto a do comunismo. Por isto mesmo, este último favorece por vezes, rixas episódicas ostensivas dos “companheiros de viagem” entre si, ou até com o mesmo PC. É o que tem acontecido, em alguma medida, na Nicarágua. E foi também o que ocorreu na “Noite Sandinista” no Teatro da PUC. Nesta última, nenhum dos elementos presentes – nicaraguenses ou brasileiros – se afirmou comunista ou simpatizante do comunismo. Mas a referência à faixa colocada a título de homenagem na cadeira em que devia sentar-se o representante de Cuba no Congresso de Teologia, em Taboão da Serra, bem como as palavras ditas, mais de uma vez, sobre Fidel Castro, não deixam dúvida sobre o prestígio e a influência determinante da Revolução Cubana e de seu chefe, em todos os movimentos congêneres da América luso-espanhola.

O modo pelo qual os oradores se dirigem ao público dá a impressão de que consideram a Revolução Nicaraguense a espoleta de análogo movimento no Brasil e em toda a América Latina. A entrega solene de um uniforme de guerrilheiro sandinista ao Bispo D. Pedro Casaldáliga, Prelado de São Félix do Araguaia, é o ato culminante da noite. Poder-se-ia dizer que é o show dessa noite.

E com razão. Ele constitui um convite a toda a “esquerda católica” brasileira a que, a exemplo do Pe. Uriel Molina, se engaje na guerrilha. O ato do Bispo vestindo a jaqueta do uniforme que lhe era assim oferecido tem o significado de uma ostensiva aceitação do convite.

Para melhor entender o alcance desse ato, que constitui como que o ósculo da guerrilha nicaraguense vitoriosa à guerrilha brasileira que está em gestação, basta ter presente o papel de relevo que D. Pedro Casaldáliga desempenha na “esquerda católica” nacional.

Assim, o ósculo da subversão nicaraguense se destinou de imediato à “esquerda católica” brasileira.

Esta parecia, aliás, inteiramente predisposta a recebê-lo. É sintomático que a “Noite Sandinista” se tivesse realizado num teatro cedido pela Pontifícia Universidade Católica, a qual tem por chanceler S.E. o Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo.

É também significativo que tenha sido designado para “coordenar” os trabalhos dessa noite Frei Betto, condenado a dois anos de prisão pela Justiça brasileira por sua participação na guerrilha urbana promovida pelo líder comunista Carlos Marighela. A cumplicidade de Frei Betto e de vários outros frades dominicanos (Sacerdotes e seminaristas) com o malogrado líder guerrilheiro, e a maneira infame como dois deles o traíram, constitui um dos maiores escândalos da História da Igreja no Brasil.

Como de costume, na América Latina, esse segmento político se mostra radicalmente insuficiente para obter, por si só, a conquista do poder. Bem sucedido em ambientes intelectualóides e de burgueses snobs, não logra verdadeiro apoio nas massas inertes e despreocupadas.

O segmento religioso é que lhes traz esse apoio, por força da tradicional e profunda influência da Igreja nos países de formação ibérica.

O fator decisivo da vitória está, pois, no Clero esquerdista.

Por isto, a grande pergunta, em função da qual se ordena a análise dos discursos proferidos na “Noite Sandinista”, é esta: como pôde suceder que a influência da Igreja tivesse sido de tal maneira instrumentalizada para o êxito do plano comunista?

O depoimento do Pe. Uriel Molina é talvez o mais significativo e importante a tal respeito. Nele se vê como um grupo de jovens que chegaram ao Sacerdócio (o Pe. Uriel, depois de estudos em estabelecimentos conspícuos) constituiu terreno fácil para a pregação revolucionária. O que faz pensar na onda de esquerdismo que tem varridos largas áreas da Igreja nas últimas décadas.

Postos em contato com a subversão que começa a germinar na Nicarágua, os Sacerdotes, em lugar de averiguar, com imparcialidade, até que ponto existem abusos sócio-econômicos, para, em seguida, trabalharem no sentido de os sanar segundo os métodos tradicionais da Igreja, pelo contrário envolvem-se com os subversivos e encetam uma caminhada que os levará ao apoio entusiástico (e até marcado por certo complexo de inferioridade) da subversão.

As várias etapas dessa caminhada aí estão historiadas: o choque interior entre a formação tradicional e os pendores para a subversão, as crises de consciência, o encontro com a Teologia da Libertação, os conflitos com a Hierarquia eclesiástica tradicionalista, e, pari passu, o envolvimento cada vez maior com a guerrilha, na qual desfechara a fermentação subversiva inicial.

A guerrilha, assim vista, toma para o Sacerdote, como para as Comunidades Eclesiais de Base – também elas inteiramente tragadas pela Revolução Sandinista – o caráter de uma verdadeira “guerra santa”. O objetivo dessa guerra é, aliás, temporal. Como se verá pelos discursos, visa o bem terreno de massas, real ou supostamente injustiçadas.

Em suma, no caso típico do “sandinismo cristão” se vê uma profunda revolução teológica que deságua na revolução social.

Importante leitura para se compreender a revolução da Teologia da Libertação.

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