Eu já enfrentei outras tempestades (PDF)

NOSSO SENHOR VELA SEMPRE SOBRE A SUA IGREJA, MAS PERMITE QUE ELA SEJA SACUDIDA POR CRISES

A Igreja é freqüentemente representada como a barca de Pedro navegando nos mares da História.

Ora ventos calmos enfunam suas velas, e ela flutua sobre as ondas com graça imponente e serena. Outra vezes, no entanto, os ventos uivam, o mar se encrespa com ondas espumantes, raios cruzam os céus, trovões alarmam os navegantes, e a nau parece naufragar.

Enquanto as rajadas de vento agitam a Barca de Pedro, o Salvador dorme. Então, como os Apóstolos, nós bradamos: “Senhor, salvai-nos porque perecemos!”. Acordando, Jesus nos tranqüiliza como fez com eles: “Por que temeis, homens de pouca fé?”. De pé, com voz majestosa, Ele ordena que cesse a tempestade, e o mar se acalma.

 “É IMPOSSÍVEL QUE NÃO HAJA ESCÂNDALOS”

Hoje a Igreja é golpeada por escândalos de abuso sexual encobertos por autoridades eclesiásticas. Ela está sendo atacada por seus inimigos, enquanto a incerteza e a confusão agitam seus filhos.

Muitos não entendem por que Nosso Senhor parece dormir ou por que Ele permite que o mal penetre no santuário. Isso aparentemente contraria tanto a promessa de indefectibilidade quanto a santidade da Esposa Mística de Cristo. A fé de muitos vacila: se a Igreja não é santa, não pode ser a verdadeira Igreja de Cristo.

Outros reagem procurando reformar a Igreja, responsabilizando pela crise os seus dogmas e ensinamentos morais e a sua estrutura hierárquica, de instituição divina.

Nosso Senhor prometeu que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, e que Ele a assistirá até o fim dos tempos. Contudo, não prometeu que Ela não sofreria crises, escândalos e aparentes colapsos.

Muito ao contrário, as parábolas de Nosso Senhor sobre o Reino de Deus, que é a Igreja, afirmam claramente que o bem e o mal farão parte dela até o fim dos tempos. Só então Deus enviará seus anjos para purificar de escândalo a Terra.

A vida terrena é um período de prova. Assim, alguns farão o mal e darão escândalo para outros. “É impossível que não haja escândalos”, disse Nosso Senhor, “mas ai dos que dão escândalo!”. São Paulo explica como esses escândalos ajudam a purificar nossa fé: “É preciso que haja heresias no meio de vós, a fim de que entre vós sejam conhecidos aqueles que são de virtude provada”.

Deus permite a tentação, mas sempre nos concede a graça suficiente para resistir. São Paulo ensina: “Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação vos há de também fornecer o meio de vos sairdes bem dela, dando-vos o poder para suportá-la”.

Explanando o episódio de Nosso Senhor dormindo na barca, São João Crisóstomo explica que a tempestade simboliza as provações futuras da Igreja, durante as quais os fiéis, os atletas de Cristo, serão fortificados. O eminente comentador da Sagrada Escritura Cornélio a Lápide, depois de referir-se a São João Crisóstomo, cita uma frase de Sêneca, para mostrar que até um escritor pagão entendeu o proveito espiritual proveniente da luta contra a tentação: “A vida sem a tentação é como um mar morto”.

A Igreja é a “Casa de Deus”, cuja pedra angular é Cristo. Ela é “a Cidade Santa, a Nova Jerusalém” descida do Céu. Contudo, Deus permite a tentação até nesse lugar sagrado, da mesma forma como permitiu que nossos primeiros pais fossem provados no Paraíso Terrestre. Desse modo, nosso amor é purificado de todo apego à consolação divina e das preocupações humanas.

NOSSO SENHOR PREVIU OS ESCÂNDALOS

Santo Agostinho explica que sempre haverá alguns bispos semelhantes ao Bom Pastor (que é figura de Nosso Senhor), e outros como os mercenários. Escrevendo a Felícia, uma virgem que se afligia com os escândalos que então infestavam a Igreja, ele disse:

 “Eu a exorto a não se perturbar demais pelos escândalos, que de fato foram previstos precisamente para que, quando acontecessem, nos lembrássemos de que tinham sido previstos e não nos inquietássemos. Pois o próprio Cristo o previu no Evangelho: ‘Ai do mundo por causa dos escândalos! É inevitável que haja escândalos. Mas ai do homem por cuja causa vem o escândalo!’ […] Assim, há aqueles que detêm o ofício de pastores que velam pelas ovelhas de Cristo; e há os que o detêm por causa das honras temporais e vantagens mundanas. Esses dois tipos de pastores, morrendo e dando lugar a outros, serão ambos perpetuados no seio da Igreja Católica até que chegue o fim dos tempos e o Senhor venha para o julgamento”.

Finalmente, quando enfrentou os erros de Lutero e Calvino, a Igreja afirmou não ser uma Igreja de santos ou Igreja dos predestinados, mas abriga em seu seio justos e pecadores.

A história da Igreja mostra claramente que Ela sempre sofreu provações. No seu nascedouro, ferozes perseguições externas tentaram destruí-la. Logo depois, heresias investiram contra Ela internamente.

Nos albores do século IV, a Igreja teve de enfrentar o arianismo, uma das mais devastadoras heresias. Negava a divindade de Nosso Senhor, declarando-O uma mera criatura, embora mais perfeita, criada pelo Pai para ser intermediário na criação e redenção do mundo. Ario, fundador da heresia, afirmava que a natureza do Filho não era da mesma substância da do Pai, isto é, que o Filho não era consubstancial ao Pai.

Essa heresia atacava os próprios fundamentos do Cristianismo. Se o Verbo não era divino, Deus não se fez homem, e os mistérios da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor não teriam significado transcendental.

Ela se difundiu por todo o mundo cristão. Tantos bispos aderiram, que São Jerônimo exclamou, com hipérbole retórica: “O mundo inteiro gemeu aturdido ao ver que se tinha tornado ariano”.

 HOMICÍDIO E SUICÍDIO ESPIRITUAL

Em um sermão sobre os atuais escândalos, o Pe. Roger J. Landry, da paróquia do Espírito Santo, em Fall River, Mass., observa acertadamente: “Infelizmente o escândalo não é novidade para a Igreja. […] Cada vez que a Igreja atinge seu ponto mais baixo, Deus suscita santos extraordinários para reconduzi-la à sua real missão. É como se nesses tempos de trevas a luz de Cristo brilhasse sempre com mais intensidade”.

O Pe. Landry cita o mau exemplo do Papa Alexandre VI durante a Renascença: teve vários filhos de várias concubinas, e depois enriqueceu-os com os bens da Igreja; muitos ficaram escandalizados e abalados na sua fé; Lutero se revoltou, apostatou e fundou uma nova religião. E acrescenta: “No devido tempo Deus suscitou muitos santos para combater essa solução errada e reencaminhar o povo para a Igreja que Cristo fundou. São Francisco de Sales foi um deles”.

Depois de mencionar episódios heróicos na vida de S. Francisco de Sales, o Pe. Landry transcreve um comentário do Santo: “Enquanto os que cometem esses tipos de escândalos são culpados do equivalente espiritual do assassinato, aqueles que se escandalizam e permitem que o escândalo destrua a própria fé são culpados de suicídio espiritual”.

O Pe. Landry afirma que S. Francisco esteve entre o povo da região que hoje é a Suíça, procurando evitar que cometessem suicídio espiritual por causa dos escândalos. E conclui: “Eu estou aqui para pregar-lhes a mesma coisa”.

 

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